terça-feira, 15 de maio de 2012

O patinho feio de Machado de Assis

Contém revelações sobre o enredo

"Ao contrário, não sei se o capítulo que se segue poderia estar todo no título."


ASSIS, Machado de. Quincas Borba. Editora Sol/Colégio Objetivo, p. 168.

Da trinca Memórias póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro e Quincas Borba, este é o menos badalado e, por isso, um injustiçado. Trata-se do melhor romance entre os três, não tão vanguardista como o primeiro nem tão citado quanto o segundo, mas o de melhor desenvolvimento e de psicologia mais sagaz.

Fala-se tanto de Capitu, o que dizer então de Sofia? Ela é imprevisível, amorosa, debochada, donzela, lasciva; algoz e vítima de si própria, lidera um tipo de personagem muito mais do que esférico, um personagem mutante e oportunista, que se molda conforme as circunstâncias.

Fala-se tanto da mediocridade heroica de Brás Cubas, mas o que falar do Humanitismo? É ao mesmo tempo uma versão literária do capitalismo e uma crítica ao jorrar de filosofias por que passou a segunda metade do século XIX.

Machado de Assis ludibria os incautos nove anos antes do mistério sobre a fidelidade de Capitu. Tornou-se conhecida a ganância do casal Palha, destruidores do inocente e bem-intencionado Rubião; no entanto, o livro mostra não um capitalismo selvagem engolidor de homens, e sim um homem deslumbrado com a riqueza repentina, um homem que esbanjou fortuna e abusou da fortuna e que não pode reclamar delas.

Sofia e Cristiano agem como qualquer ser humano: baseados em suas sinceras virtudes e inevitáveis fraquezas. Eles não descaminham Rubião, ninguém o obriga a desperdiçar dinheiro. Seus problemas começam dentro da própria cabeça, a começar pela obsessão para com o cachorro. O fim de Rubião começa antes de ele conhecer o casal Palha, ao fraquejar diante da herança que recebeu.

Quincas Borba é bem conduzido com frases mundanas, que não revolucionam o enredo, mas lhe dão ritmo, ou seja, verossimilhança. O uso vasto e heterodoxo da pontuação permite acelerar e frear a narrativa, expressando as mais variadas situações da dicotomia província/Corte.

Que se preste atenção não à ação ou aos mistérios. Não importa tanto saber o que acontecerá; interessa observar o comportamento dos personagens.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Descaso priva nordestino da cultura

O corte de verbas em festas juninas em algumas cidades do Nordeste é doloroso, porém urgente. O dinheiro será usado (espera-se) na mitigação dos efeitos da seca.

Devido ao abandono sofrido pela população agreste desde o Império, vide o paradigma de Canudos, o sertanejo tem que priorizar a necessidade fisiológica em detrimento da condição de ser humano.

Afinal, o que tira o homem da irracionalidade é a cultura.

sábado, 5 de maio de 2012

Acertos de Dilma Rousseff

Embora o governo negligencie as prioridades do país, conduz bem questões importantes, porém secundárias. Preguiçoso ao lidar com a educação, preferindo abarrotar as universidades com estudantes despreparados em vez de prepará-los no ensino básico e fundamental, inerte quanto à saúde, assistindo ao desperdício de dinheiro público enquanto faltam profissionais e materiais nos hospitais, o governo Dilma angaria méritos aqui e ali que, se não resolvem de vez o atraso brasileiro, ao menos mitigamos problemas.

O programa Ciência sem Fronteiras acerta em cheio ao propiciar estudos de brasileiros no exterior, já que temos apenas a USP entre as setenta melhores universidades do mundo, segundo uma revista londrina. Alterar as regras da poupança foi corajoso, pois seria mais cômodo deixá-la como está, sem enfurecer os eleitores. Cobrar a responsabilidade dos bancos no Dia do Trabalhador foi necessário, perspicaz e simbólico. Trabalhar com os governos estaduais e municipais em São Paulo e Rio de Janeiro, independentemente das rixas políticas, estabeleceu um paradigma: gestão divergente, mas responsável e colaborativa; só assim podemos resgatar do caos as nossas metrópoles.

Certamente faltam impulsionar a base aliada a reformar o código penal e o código de processo civil, restaurar as estradas, ampliar os aeroportos, disseminar o ensino de inglês e espanhol, aumentar o salário de professores, médicos e policiais, pressionar os países vizinhos a combaterem o narcotráfico, defender na ONU as metas ambientais. Há muito o que fazer em segurança, transportes e turismo. Não adianta argumentar que estamos apenas no segundo ano de governo. O PT está nele há nove anos, e o Brasil tem pressa, ainda mais quando o vemos andar mais devagar do que poderia, flertando com a desindustrialização e a inflação - finalmente combatidas com um discurso firme de redução de impostos e de juros, discurso este que falta se concretizar no médio prazo.

A presidente tem mais uma chance de andar para frente: a apreciação do código florestal. Os ruralistas defendem-no alegando a necessidade de manter a produção de alimentos. Entretanto, todos sabemos que o Brasil não sofre problema de produção, mas de distribuição do que já existe. Vete-o, Dilma, para que tenha mais capital político para queimar e providenciar as urgências do país.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

O imponderável eliminou o Barcelona

É oportunismo dizer que o Barcelona está em declínio, que aprenderam a marcá-lo, que Messi jogou mal contra o Chelsea, que Guardiola errou. Sobrenatural de Almeida fez a diferença.

Segundo as estatísticas da Uefa, o Barcelona chutou em gol 27 vezes e fez do Chelsea, uma potência mundial, gato-e-sapato, mostrando ser disparado o melhor time do mundo.

No entanto, o resultado foi justo. Que arma os londrinos tinham? Marcação. E os catalães? Multiplicar os gols. O Chelsea marcou melhor do que o Barcelona fez gol, sem falar da frieza de Ramires e Torres ao encarar Valdés.

A semifinal de terça nada muda o cenário mundial do futebol.


terça-feira, 24 de abril de 2012

O feliz aniversário de Brasília

Os organizadores da Bienal do Livro de Brasília estão de parabéns. Eventos assim diversificam as opções da cidade e incutem a necessidade de cultura na população.

Os preços dos livros não estavam vantajosos, o espaço para circulação era pequeno, e falhas técnicas atrapalharam a programação, mas nada disso mancha a Bienal. Ela esteve cheia e trouxe participantes influentes, como o nobel nigeriano Wole Soyinka, o tradutor Eric Nepomuceno e o escritor Milton Hatoum.

Importante destacar os temas debatidos, o que fez da Bienal não só um produto mercadológico para lucrar com livro, mas também um espaço de fomento de ideias, vide a exposição sobre Ziraldo, a discussão sobre literatura brasiliense e o paralelo entre rock e ficção.

É claro que o governo gastou muito com o aniversário de Brasília, porém não se pode cair na ignorância de que isso tira dinheiro da saúde e da educação. É ótimo participar do circuito mundial de vôlei de praia, é ótimo haver apresentações musicais na Esplanada dos Ministérios, é ótimo comemorar os 52 anos da capital. Tais eventos estimulam o turismo, divulgam a cidade, trazem investidores. O problema no Distrito Federal é dinheiro desviado e/ou desperdiçado.

Se incentivarmos o nosso teatro, baratearmos os ingressos de cinema e abrirmos espaço para artistas locais, vamos construir no cerrado um polo de cultura como Rio de Janeiro e São Paulo. Destarte, faremos de Brasília mais agradável e do brasiliense, um povo mais entretido, consciente e culto.

domingo, 15 de abril de 2012

As promessas dos editores

"(...) os publishers pensavam como publishers, gente interessada em lucro, não em filantropia. Moravam nas proximidades da Quinta Avenida ou em outros bairros elegantes e tinham casas de veraneio. Ao mesmo tempo que defendiam a causa da igualdade, mandavam seus filhos para escolas particulares e viviam atrás de muros altos e porteiros. Faziam muitos discursos sobre a liberdade de imprensa, porém diziam "Sem comentários" aos repórteres que cobriam as negociações com os [tipógrafos] grevistas e costumavam barrar a imprensa em seus encontros de negócios."

TALESE, Gay. O reino e o poder. Companhia das Letras. São Paulo, 2000, p. 307.

Corremos o risco de nos decepcionar com um livro quando ele promete uma coisa e apresenta outra. O reino e o poder, do americano Gay Talese, apresenta na edição brasileira dois subtítulos: um na capa ("A reportagem clássica que revelou a intimidade do jornal mais importante do mundo") e um nas páginas internas ("Uma história do New York Times"). Ocorre, porém, que ambos, diferentes do subtítulo original, destoam do que o próprio Talese quis fazer: "uma história humana de uma instituição em transição, um livro que contaria mais sobre os homens que cobrem as notícias do que sobre as notícias que cobrem" (p. 518), conforme ele explica no posfácio.

Principiei a leitura ansioso por conhecer o Times e deparei com a história de vida dos homens e mulheres que o fizeram. Em vez de conhecer a fundo a criação da notícia e suas implicações, o que foi apenas tangenciado, li sobre a vida de vários jornalistas e executivos do Times. É mais um livro sobre gente do que sobre jornalismo, uma imersão na genealogia e na carreira dos personagens. Essa incongruência é responsabilidade da Companhia das Letras.

No mais, O reino e o poder, o primeiro sucesso de Talese, esboça o jeito literário de escrever, que ele consolida em Fama e anonimato e A mulher do próximo. O texto é mais descritivo que narrativo, mais História que literatura, e lança mão de poucas técnicas ficcionais. Contudo, aparece a precisão do autor na coleta de informações - que o consagraria décadas mais tarde - com enfoque em detalhes que outros jornalistas desprezariam, mas que compõem o cenário retratado numa percepção diferente da realidade. Pena ele abusar de adjetivos pouco explicativos ("trabalhador incansável", "repórter agressivo", "jornalista sedutor").

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Ninguém é Deus

Respeito todos os argumentos desfavoráveis à nterrupção da gestação de anencéfalos, menos um.

Não digam "porque Deus quer", não digam "é a vontade de Deus". Não se pode usar o argumento da fé para as coisas mundanas.

Deus não tem nada a ver com isso.

Os carolas dizem que ninguém tem o direito de interromper a gravidez porque "ninguém é Deus".

Ninguém é Deus. Essa frase é perfeita na boca de um ateu.

domingo, 1 de abril de 2012

O segredo são os olhos

Contém revelações do enredo.

O cinema argentino merece todos os elogios pelos seus dois Oscars e pela sua arte em geral (não por acaso de lá vem Borges e o tango). É exatamente essa qualidade que nos permite avaliar o nível do nosso cinema. As melhores películas brasileiras não devem em nada às melhores argentinas.

Veja O segredo dos seus olhos. Um filme que explora as possibilidades da câmera, um filme composto de atores versáteis, um filme de trama elaborada e, acima de tudo, um filme tão bom quanto os filmes brasileiros.

Em que O segredo dos seus olhos supera Cidade de Deus, Tropa de elite, Vips? Nada. Todos eles têm fotografia bonita, roteiro enigmático, narrativa esférica. São polissêmicos nas suas representações do país e do mundo, investigando o que se passa nos porões da mente e no coração da sociedade.

O filme argentino traz inclusive alguns defeitos estruturais. A descoberta da identidade do assassino e do paradeiro dele são um tanto inverossímeis, possíveis, sim, mas improváveis, e o destino do protagonista é um final feliz piegas.

Por que então a crítica internacional negligencia o cinema brasileiro enquanto nossos vizinhos, na visão deles, estão em patamar superior? A única explicação que vislumbro é a mesma para o que se passa com a nossa literatura e a nossa música: o ponto de vista.

Sendo a língua portuguesa menos disseminada que a espanhola, tudo que depende do idioma está sujeito a esse cenário. Não por acaso a pintura brasileira é famosa, vide Portinari, Di Cavalcante e Tarsila. Alguém pode contrapor: "a bossa nova é famosa". Famosa depois da interferência de Frank Sinatra e da adaptação de Garota de Ipanema para o inglês.

Nossa arte é tão boa quanto as mais badaladas, só é menos repercutida. Se os olhos dos gringos não enxergam isso, a culpa não é nossa.

terça-feira, 20 de março de 2012

O brega é bom

Venho admitir uma das grandes verdades do século XXI, que relutei, relutei! em dizer: Gusttavo Lima, o cantor do tchetcherererê tchê tchê, é um sábio.

Ele repete pelo mundo um aforismo digno dos provérbios anônimos. Atentem à música "Balada boa" (a do tchetcherererê tchê tchê). A princípio ela é só o tchetcherererê tchê tchê, Gusttavo Lima e você.

Porém, se fizermos uma autópsia na letra, descobriremos (rufem os tambores) o seguinte hemistíquio: "vem que o brega é bom".

É isso, senhoras e senhores: Gusttavo Lima (e Michel Teló) é brega. Só isso. Seus admiradores podem curti-lo à vontade, sem medo do preconceito, contanto que esqueçam essa história de sertanejo universitário e entendam que ambos nada mais são do que bregas.

O sertanejo universitário não é um novo jeito de fazer música, trata-se apenas de uma alcunha que explica a popularização da música rancheira, caipira e/ou romântica, com violas e sanfonas, às vezes tratadas à guitarra, entre universitários.

Inclusive os temas são os mesmos, com tênues diferenças. Em vez de juntar as fichas telefônicas para ligar para a amada, o sertanejo romântico e o brega de hoje mandam SMS. Histórias apresentadas como novas, como a do cara que esculacha a mulher em vez de se arrastar por ela, existem desde que Tião Carreiro aprendeu a andar.

Dancem, cantem, fiquem roucos por Lima e Teló, contanto que os tratem como de fato são: bregas. Assim, Gustavo pode até chamar-se Gwsttawo Lyma, sem problema.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Boaventura, boa leitura

"Viramundo! Que um dia há de rebelar-se dentro de mim, enfim liberto, poderoso em sua fragilidade, terrível na pureza de sua loucura."

SABINO, Fernando. O grande mentecapto. Record. Rio de Janeiro, 1998, 189.

Sempre defendi o direito de as pessoas consumirem a indústria cultural que desejarem. Ler
Crepúsculo, ouvir Restart ou assistir à novela das 8 não é problema. Apenas me entristeço ao ver a alta cultura negligenciada, sequer experimentada, como se fosse um castelo inexpugnável frequentado por um bando de metidos a intelectuais.

Por isso recomendo alguns livros que flutuam entre o sublime e o vulgar, que saem do chão sem chegar ao topo, permitindo degustar um pouco de literatura sem sofrer. Os primeiros romances de Jorge Amado, O senhor dos anéis, de Tolkien, ficções históricas ou policiais ilustram esse tipo de livro não exatamente canônico, mas nem por isso menos prazeroso.

É o caso de O grande mentecapto, de Fernando Sabino. Podemos debater vários defeitos deste romance picaresco, como a tentativa exagerada de imitar Dom Quixote (o que limita a independência da obra) ou a escrita muitas vezes simplória ou as mudanças bruscas no enredo ou a insistência do narrador em comentar o próprio estilo em vez de narrar a estória (recurso que um Saramago usa com mais parcimônia e, logo, com mais sucesso).

No entanto, dando-se ao livro a dimensão que de fato tem, isto é, a de um simples Dom Quixote brasileiro, divertido e contestador, mas sem brilhantismo, é possível desfrutar de uma narrativa bem feita, construída à base da sabedoria popular e das referências literárias de Minas Gerais, com ilhas de densidade. É, na verdade, um tributo a Minas com a leve ambição de representar o Brasil.

Sabino é um escritor confiável. Dificilmente conseguirá espaço entre os grandes da literatura nacional, mas será lembrado como um autor que vale a pena. O grande mentecapto permite curtir um bom texto evitando ao mesmo tempo o comercial e o erudito.